Os pássaros do jardim da minha avó cantam do mesmo jeito, mais de trinta anos depois.
Essa é uma constatação bizarra de minha parte, pois odeio romantismo. Não o romantismo banal do “eu sou uma pessoa romântica porque gosto de Air Supply”, mas romantismo enquanto estilo literário, em que se gasta um capítulo inteiro descrevendo a natureza e se morre de tuberculose porque a menina que passa em uma carruagem pela praça todo dia nunca te olhou. Não tenho o menor saco pra esse tipo de romantismo.
Logo, não vou perder tempo descrevendo o jardim da minha avó, muito menos os pássaros, até porque nunca os vi, só os ouvi. Os ouço desde sempre, há tanto tempo que nem dá para estabelecer uma data. Sei que eles sempre estiveram ali, e sempre cantaram do mesmo jeito. Até hoje, quando o mundo está de cabeça pra baixo e estou gente grande com uma vida muito diferente da que imaginei quando os ouvi pela primeira vez.
Mas isso é outra história.
Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais.
Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.